Antes de uma viagem internacional aparece quase sempre a mesma dúvida, formulada de um jeito parecido: o inglês do adolescente vai dar conta? A pergunta costuma partir de uma ideia que nem sempre corresponde à realidade. Hoje em dia, boa parte dos jovens que viaja para o exterior já teve algum contato relevante com o idioma, seja na escola, em curso, em música, filme, jogo ou simplesmente navegando na internet. O desafio raramente é começar do zero. É outro, bem diferente: usar esse inglês que já existe numa situação real, sem roteiro pronto e sem tempo de formular a resposta perfeita.
Isso muda bastante de figura. Mesmo quem estudou inglês durante anos pode sentir insegurança no primeiro contato de verdade. Alguém fala rápido demais. Tem sotaque que não é o da escola. Faz uma pergunta que ninguém esperava, ou responde algo bem diferente do que o jovem tinha imaginado. Saber o idioma no papel e conseguir usá-lo ali, na hora, com alguém esperando resposta, são coisas relacionadas, mas não são a mesma coisa.
Isso não é exclusividade de adolescente, nem de quem está aprendendo. Nas viagens que fiz, precisei me comunicar em outros idiomas, com níveis de conhecimento bem diferentes de um idioma para outro. Em alguns tinha vocabulário de sobra. Em outros contava só com uma palavra solta, um gesto, o contexto do lugar e uma tentativa mesmo sem ter certeza se ia funcionar. Funcionou quase sempre, ainda que nem sempre da forma mais bonita.
Três coisas que não são a mesma coisa
Vale separar bem: saber inglês, conseguir entender aquela pessoa específica naquela situação, e conseguir se comunicar apesar das limitações. São três coisas diferentes, e a viagem cobra principalmente a última.
Alguém com bom inglês pode não entender uma frase de primeira, por causa de sotaque, ruído ou velocidade da fala. E alguém com inglês bem limitado pode resolver uma necessidade simples só com algumas palavras, um gesto e um pouco de paciência dos dois lados. O objetivo aqui não é aumentar o vocabulário do adolescente antes de embarcar. É deixar mais natural para ele usar o que já tem, e continuar tentando quando isso não bastar.
Quatro situações que vale saber enfrentar
Grande parte do que o jovem vai precisar dizer cabe em quatro tipos de situação: pedir algo, pedir uma informação, avisar que não entendeu e pedir ajuda. Não é necessário decorar dezenas de frases para cada uma. Um punhado já cobre bastante coisa, principalmente as que servem para manter a comunicação funcionando quando ela começa a falhar.
Pedir algo “I would like water, please.” “How much is it?”
Pedir informação “Where is the bathroom?” “Can you help me, please?”
Dizer que não entendeu “I don’t understand.” “Can you repeat, please?” “Can you speak slowly, please?”
Pedir ajuda “I need help.” “I am with a group.” “I lost my group.”
Essas últimas frases têm um valor particular. Não resolvem a conversa inteira, mas seguram a comunicação de pé no momento em que ela começa a desandar, e isso já é bastante coisa.
Quando não entender, o que fazer
Às vezes, o problema nem é a falta de vocabulário. É a vergonha de admitir que não entendeu. Um adolescente pode saber a palavra certa e mesmo assim ficar em silêncio, responder qualquer coisa só para sair da situação, ou fingir que compreendeu para não parecer perdido na frente de estranhos, ou pior ainda, na frente dos colegas.
Isso não acontece com todo mundo, mas é bastante comum, e vale conversar sobre isso antes da viagem. Fingir entendimento tende a sair mais caro do que simplesmente pedir para repetir. Uma informação errada aceita por vergonha pode gerar mais confusão do que um “I don’t understand” dito na hora certa. Pedir repetição, trocar uma palavra difícil por outra mais simples, apontar, mostrar algo no celular, tudo isso continua sendo comunicação. Não é sinal de que o inglês falhou.
Ouvir pode ser mais difícil que falar
Muita atenção vai para o lado de falar, mas ouvir também tem sua dificuldade, às vezes maior. O inglês real, o das ruas, aeroportos e lojas, soa diferente do inglês de aula, de vídeo didático ou de aplicativo. As pessoas falam rápido, engolem sílabas, têm sotaques que variam de país para país, apontam enquanto falam.
O jovem não precisa entender a frase inteira. Precisa pegar o suficiente para agir. Reconhecer “left” ou “right” já indica direção. Perceber “wait here” já indica que é para esperar. Vale expor o ouvido a situações reais antes da viagem, algum vídeo curto, algum áudio, sem transformar isso num curso preparatório.
Tradutor, gesto e outros recursos
O tradutor no celular é mais um recurso disponível, ao lado do gesto, da imagem, da escrita e da ajuda de outra pessoa. Ele resolve bem cardápio, placa e palavra desconhecida, mas tem limite. Falta internet, acaba a bateria, o lugar está barulhento demais, ou a situação pede uma resposta mais rápida do que o tempo de abrir o aplicativo.
Vale testar antes de embarcar: baixar o idioma para uso offline, se o aplicativo permitir, treinar a tradução por voz e por câmera. Isso ajuda, mas não substitui a tentativa direta. Às vezes apontar e sorrir resolve mais rápido do que qualquer aplicativo.
O que ele precisa conseguir dizer sobre si mesmo
Existem algumas informações que o adolescente precisa conseguir comunicar sozinho, sem depender de ninguém por perto. Nome. País de origem. Que está viajando com um grupo. Alguma alergia ou restrição relevante, quando for o caso. Se usa algum medicamento ou tem uma condição que precise ser explicada rápido numa emergência, vale ter isso também escrito, no celular ou num papel guardado na carteira, revisado com calma antes da viagem.
Não é uma lista extensa. É o mínimo que garante que ele consiga se identificar e pedir ajuda mesmo num momento em que estiver sozinho ou muito nervoso.
Um exercício antes de embarcar
Um exercício rápido em casa ajuda mais do que decorar uma lista enorme de frases, e o segredo está em não testar se o adolescente sabe inglês, e sim colocá-lo diante do imprevisto.
Ele pede água e a pessoa faz uma pergunta que ele não esperava. O que faz agora? Pergunta onde fica o banheiro e a resposta vem rápida demais para entender. Como pede para repetir? Alguém pergunta alguma coisa sobre ele, tipo de onde vem ou com quem está viajando, mas de um jeito que ele não reconhece de primeira. Como reage?
Esse tipo de ensaio treina exatamente o que costuma faltar: continuar a conversa quando ela sai do roteiro esperado.
O adolescente não precisa embarcar sabendo tudo. O mais importante é conseguir usar o inglês que já tem, seja muito ou pouco, e ter algumas saídas para continuar tentando quando ele não bastar.
O inglês básico funciona melhor quando o jovem também sabe usar o celular direito e já tem alguma autonomia construída antes da viagem: